Cada vez mais, me sinto culpado. Me sinto culpado e responsável até pelas pessoas que não se sentem nem culpadas, nem responsáveis. Somos um grande organismo, vivo, pensante, coletivo, social. E portanto, não consigo me ver separado da sociedade e dos seus crimes e erros. Aviso: este texto será extremamente repetitivo, e fará uso constante das palavras culpa e responsabilidade.
Me sinto culpado das coisas mais triviais, que nunca tinham passado pela minha cabeça antes. Me sinto culpado por estar vivendo numa sociedade rica que se criou às custas de muitas vidas, séculos de exploração de colônias, mão de obra barata, trabalho escravo e discriminação racial. Me sinto culpado por ter tido uma boa educação e uma boa vida, enquanto tantos nasceram e morreram na pobreza com mínimas chances de sucesso.
Me sinto culpado por utilizar a educação e as chances que me foram dadas em algo tão fútil quanto a indústria de jogos, na maioria medíocres e dispensáveis. Me sinto responsável por não criar algo que seja realmente relevante, responsável por não mudar o mundo, por não me dedicar sempre 100% a tudo, por não inspirar, por apenas ser inspirado por outros. Culpado pelo meu 34o. aniversário sem nenhum feito relevante ou que marque minha passagem por aqui suficientemente para torná-la mais do que a vida de um inseto qualquer.
Me sinto responsável pelas minhas inações, tanto quanto pelas minhas ações. Não consigo mais discernir entre fazer algo ruim, e deixar de tomar uma atitude para parar um ato ruim. Cada vez mais as duas idéias se confundem e me parecem a mesma coisa. Me sinto culpado por encontrar conforto no fato de que eu ao menos faço a minha parte; mas o que é a nossa parte? Onde a linha é traçada? Não devo sempre apagá-la e riscá-la mais adiante? Me sinto culpado por não ter me sentido responsável antes, e por ainda não ter feito o suficiente para deixar de me sentir deste modo. Me sinto culpado por sufocar este impulso com a desculpa de que não importa o que eu fizer, nunca será suficiente. Me sinto culpado por que penso que isto é como saber que eu nunca vou conseguir subir a maior montanha do mundo, e isso me impedir de subir um morro ao lado de casa. E me sinto responsável por todos os morros e montanhas que eu poderia subir.
Me sinto culpado por criticar abertamente as religiões, às vezes possivelmente magoando pessoas que respeito e amo. Mas ao mesmo tempo me sinto responsável por fazer ouvir minha voz e expor minhas idéias. Me sinto num beco sem saída onde tudo que me resta é sempre pensar de mim mesmo que sou culpado e que sou responsável de tantas coisas.
Me sinto culpado por visitar igrejas no mundo todo, pagando muitas vezes pequenas fortunas como qualquer turista querendo observar alguma fantástica obra arquitetônica. Me sinto culpado ao pensar a que custo essas construções foram criadas; manipulação e alienação de populações pelo mundo todo. Me sinto responsável por fazer parte, mesmo de modo indireto, de uma instituição que eu vejo como corrupta e nociva. Culpado por financiar uma igreja que prega o não uso de preservativos pelo mundo, condenando milhares de bebês a nascerem com AIDS, e milhares de nascimentos não planejados quando não há comida para alimentar a todos.
Me sinto culpado por ter sido frequentemente homofóbico, e ter me dado conta apenas agora de quanto pode ser nocivo. Me sinto responsável por sempre expor uma opinião contrária a discriminação, seja racial, sexual, ideológica ou religiosa. Mas culpado por às vezes ser rude com pessoas que têm estas opiniões por uma conjuntura de fatores, que não necessariamente têm noção do que pensam. Culpado por todas as vezes que fui intransigente e não escutei a opinião alheia com o respeito e a consideração que todos merecem. Culpado por não ter a paciência necessária para interpretar e entender mesmo os que eu julgo errados e culpados.
Me sinto culpado por me criticar e me culpar por tudo que acontece ao meu redor, por me sentir responsável por tudo, ao mesmo tempo que não acredito em livre arbítrio. Culpado por às vezes não me sentir responsável devido a esta mesma crença, quando ao mesmo tempo eu entendo a implicação de que mesmo acreditando ter meu destino escrito, ainda preciso passar pelo processo mental que vai me levar às ações que estão por vir. Me sinto culpado por dizer tantas coisas mas sem explicá-las tanto quanto eu deveria, por me sentir incapaz de dividir algo que mal consigo explicar a mim mesmo, e de não ter a paciência de ao menos tentar.
Me sinto culpado pela depredação do mar, por todos os peixes que já comi, por todo o dinheiro que dei à indústria pesqueira para financiar a destruição de espécies e habitats. Pelo fato de ouvir por anos sobre o que está acontecendo, e ignorar pensando que eram exageros que não tinham nada a ver comigo. Me sinto responsável por ter contribuído para a destruição de corais e por adorar comer um camarão sem nunca ter parado para pensar ou pesquisar quantos animais morrem para capturar apenas um punhado deles. Culpado por adorar comer um peixe sem ligar para a destruição do fundo do mar com redes que têm um efeito de escavadeira, destruindo tudo em seu caminho.
Me sinto muito culpado por comer carne por 34 anos, nunca me importando com as condições dos animais envolvidos no processo e mortos após passar por uma vida estúpida literalmente em uma linha de montagem. Responsável pelo financiamento e morte de milhares. Culpado por não ter tido ainda força suficiente para me tornar vegetariano. Culpado por esta e tantas vezes me preocupar mais com a opinião dos outros do que fazer o que eu penso ser a coisa certa.
Me sinto culpado por cada vez que penso que a ignorância é uma bênção.
Me sinto culpado por comprar eletrônicos e roupas apenas me preocupando com seus preços. Sinto-me responsável por todos os funcionários de linhas de montagem que já se suicidaram ou que ficaram com problemas neurológicos. Responsável por cada criança trabalhando ao invés de estar brincando ou estudando, para que eu tenha um telefone um pouco melhor que meu anterior ou uma calça nova, por um preço mais barato possível. Por não verificar as consequências ambientais das minhas escolhas e consumismos.
Me sinto culpado por toda poluição em que vivemos; por me deslocar em veículos queimando petróleo; por utilizar eletricidade poluente; por utilizar aquecimento a gás quando eu poderia apenas vestir um casaco. Me sinto responsável pela vida pobre de milhões no Oriente Médio, enquanto financio ditadores e magnatas do petróleo. Responsável por todo o lixo que gerei durante minhas mais de 3 décadas neste planeta, em especial o que descartei não me preocupando em buscar opções de reciclagem. Culpado pela comida que eu desperdicei, quando a tantos faltam os nutrientes mais primários.
Me sinto responsável pela minha família, culpado por estar tão longe, por deixá-los saudosos, por não conversar com eles tanto quanto eu deveria. Culpado por sempre estar ocupado demais com as trivialidades da minha vida e não dedicar mais tempo a todos que amo, por não enviar uma mensagem de carinho a todos meus amigos queridos com a frequência que eles merecem.
Culpado, culpado, mil vezes culpado. Acho que já é hora de todos nos sentirmos assim. E também responsáveis de fazermos algo a respeito. Quem sabe assim um dia façamos todos; especialmente eu mesmo.
Grande Sir Tocaio!! Sempre tocante em seus pensamentos.
Parece que você amanheceu de ressaca ehehhe. Mas tudo bem, a ressaca, no fundo, nos fará bem.
Não podemos levar a “culpa” do mundo e da força da natureza em nossas costas. Plante uma arvore, escreva um livro e tenha um filho… Ou faça mais de um destes. Basta!! No restante: “Keep Walking”….. Keep… Walking….
Abração!!
Hehe, não é ressaca não, apenas umas ideias que passam pela minha cabeça de tempos em tempos. Talvez tenha ficado mais confuso do que eu gostaria, mas às vezes é bom dar uma chacoalhada nas ideias
Abração!
Heheh… Toca(io) pra frente este “Ser ou Não Ser”. Abração a vocês!!
Cara, muito interessante este post. E tu sabe que já ouvi isso de diversos conhecidos que viveram na Europa. Minha irmã mesmo, quando morou na França, relatou um sentimento muito parecido. Sabe o que indiquei para ela? Sartre. Esse teu sentimento é exatamente a filosofia sartreana. Ela leu e respondeu que quando ela lia Sartre, reconhecia exatamente a forma de pensar dos franceses.
Sartre tem diversos romances fáceis de ler. Quanto à filosofia, a principal obra é O Ser e O Nada.
No entanto, Sartre tem algumas inconsistências, como todo mundo, claro. Aí é a hora de ler também Heidegger (possivelmente a mente mais brilhante do século passado).
São sugestões de leitura, pois compartilho com o teu sentimento.
Grande abraço (para ti e para a Neiva), parabéns pelo teu aniversário (até lembrei, já que é a data do meu aniversário de casamento, lembra?), e mantenha contato.
Ae Marquinhos =) é verdade, parabéns pelo teu aniversário de casamento, manda um beijo pra Suélen!
Valeu pelas dicas, vou experimentar ler Sartre, é um destes autores que sempre está na lista de coisas a ler. É bom saber que não enlouqueci e que não estou sozinho… Heidegger parece sensacional também.
Abraço!
Qualquer coisa que a gente faça a respeito já é muito mais do que quem não faz nada, mas por mais que faça sempre não será suficiente perante ao mundo. Beco sem saída.
Se fizer um “bom dia” e “obrigado” todo dia já está melhor que a média mundial… Tb acho que abolir carne seria mais ético, mas perante um strogonoff qualquer argumento é fraco…
O único jeito se ser plenamente responsável é ir morar nas montanhas…
Enfim é a vida, nos vemos todos nas fogueiras do inferno, pecadores!
Mas o Bruce disse que hell is not a bad place… quem sabe….
Saúde e paz!
Tche
Não é querer que tu te exima, mas a gente vive em um mundinho complicado demais e é impossível demais viver 100% do tempo atento a 100% dos detalhes.
Cuida bem da tua mulher. Bebe devagar (apreciando). Procura tirar todas as skinner-boxes dos jogos que fizeres e colocar escolhas moral e emocionalmente relevantes neles – eles farão as pessoas mais inteligentes e felizes , e isso importa.
Te engaja em alguma coisa. Qualquer uma. Mas uma só.
Pra não deixar passar batido: OCA!
Tô ligado xD
Se tu ainda acha que jogo é só supérfluo, não tem capacidade de ser útil ou gerar reflexões, emoções, veja isso: http://vimeo.com/25681002
Jogue isso http://freebirdgames.com/
E http://www.peacemakergame.com/
[]´s
Ei, não distorça minhas palavras, eu disse “*na maioria* medíocres e dispensáveis”.
Não tenho dúvidas do potencial dos jogos como catalisadores de mudança e uma importante mídia, assim como não tenho dúvidas de que existe uma minoria de jogos que são simplesmente sensacionais.
Ótimos links, os que tu mandou. Um projeto que eu achei muito sensacional é esse, por exemplo o foldit: http://www.bbc.co.uk/news/technology-14986013 … me deixou muito interessado nessa ideia de “jogos com propósito” =)