Faz anos que não escrevo, mas achei um bom motivo para voltar. Recentemente mudei de emprego, agora trabalho em outra cidade, embora ainda more em Nottingham. Esta experiência está sendo interessante o suficiente para vencer a minha procrastinação, então lá vai =)

Para os amigos e família (não necessariamente duas categorias excludentes), quero deixar bastante claro: o fato de não ter escrito mais não significa de maneira alguma que me esqueci de vocês; nunca esquecerei. A amizade e lembrança de todos vocês é muito importante para mim e penso seguidamente em todos vocês, podem ter certeza. Alguns eu recebo notícias pelo facebook/twitter, mas para muitos, a distância parece estar pagando seu preço. Por isso, lembrem-se de mandar notícias sempre que puderem, vençam a timidez e me escrevam, visitem Nottingham ou ao menos mandem um sinal de fumaça! Estou sempre disponível para vocês! ;)

Bom, mas agora senta que lá vem história!

A Monumental, empresa onde trabalhei desde que cheguei aqui em 2008 até o início de 2011, passou por maus bocados no ano passado. Após perder 2 contratos grandes, sendo um Moto GP e outro do qual não posso falar, foi obrigada a mandar embora cerca de 40 dos 60 funcionários que empregava. A coisa toda ocorreu de uma maneira bastante dolorosa; fomos avisados dois dias antes da situação e do número de cargos que sobrariam. Durante esse par de dias continuamos trabalhando, discutindo os termos do processo, tirando dúvidas, tivemos que nos candidatar aos cargos e passar por uma entrevista.

Dois dias de tortura, dificuldade para dormir, angústia, preocupação… especialmente sendo um imigrante aqui, minha situação é bastante delicada pois meu visto é do tipo Tier 2, que significa que estou vinculado à uma empresa específica, e com o vínculo terminado eu teria que conseguir rapidamente outro visto com outra empresa, ou voltar ao Brasil. Com minha mãe vindo me visitar em alguns meses, com passagem comprada e tudo, a coisa estava complicada e o que eu menos queria era arruinar a viagem dela, que estava toda organizada (e com as passagens pagas).

Acho que aqui vale um adendo… nunca comentei sobre isso (ao menos não me recordo) mas desde que me mudei para o Reino Unido, a política imigratória tem piorado muito. Colocaram várias barreiras para tentar reduzir o números de imigrantes como eu ao mínimo possível. Uma das medidas é que apenas empresas certificadas como patrocinadoras podem contratar estrangeiros, o que reduziu extremamente minhas opções de trabalho (poucas empresas se aventuram a passar por toda essa longa, complicada e dispendiosa aventura), além de uma cota máxima de vistos expedidos e várias outras regras que não vou detalhar aqui (tentar) não ser enfadonho. Aliado a isso, a crise financeira pela qual o país está passando (muitas empresas de jogos fecharam as portas, e muitos cortes de custos estão sendo feitos pelo governo: saúde, educação e segurança para citar alguns) aumentou a concorrência por vagas de trabalho. Além do mais, não passava pela minha cabeça que iriam demitir 40 britânicos e manter o único estrangeiro que eles tinham (eu). Longa história em poucas palavras: eu estava meio que ferrado!

Enfim, chegou o fatídico dia, que posso dizer que foi o dia mais triste da minha vida (e espero que continue assim). Preciso descrever isso pois foi muito surreal e acho que vale colocar em palavras. Bom, pela manhã mandei um e-mail de despedida, agradecendo a todos pelos mais de dois anos de convivência, por ter sido tão bem vindo, descrevendo brevemente como foram os meus primeiros dias no Reino Unido e consequentemente na empresa… o que, descobri mais tarde, levou alguns às lágrimas. E depois falam que Ingleses são frios (generalizações são malignas). A essa altura, parece que nem importava mais quem ficaria pois sabíamos que acontecesse o que acontecesse, nada mais seria igual e perderíamos o convívio diário com tantos amigos. Em momento algum eu vi qualquer sinal de competição pelas vagas, pois éramos como uma grande família.

Hambúrgueres no Old Angel

Fizemos um último almoço juntos no pub da esquina, naquele clima de um batalhão se reunindo uma última vez antes de ir para uma batalha que, sabíamos, levaria muitos dentre nós (que drama heim?). Descobrimos então que deveríamos arrumar nossas mesas e pegar todos os pertences, pois depois do veredito iríamos ir direto a um pub para nos encontrarmos, e não seria permitido voltar à nossa mesa ou falar com os outros que ainda estariam esperando sua vez. Após um longo atraso, durante o qual vivemos uma situação muito surreal, todos juntos escutando Johnny Cash que o Harvey colocou no seu computador e conversando, começamos a ser chamados. A cada um que saía da sala, todos batiam palmas. Me voluntariei assim que vi uma boa chance, pois queria acabar com aquilo de uma vez; entrei em uma sala, recebi uma carta que dizia que eu tinha mantido meu emprego, e um aperto de mão. Em um misto de perplexidade e alívio, ainda meio que dormente com toda a situação, meio zumbi, me encaminhei para o pub me encontrar com o restante.

Chegando lá (no Pitcher & Piano), bebemos por muitas horas, a cada um que chegava perguntávamos se ficaria na empresa, por vezes perguntávamos apenas com o dedão (para cima ou para baixo?), ao que a pessoa geralmente respondia que não sabia, o que se explica facilmente, pois ainda não tínhamos certeza se era melhor ficar ou ir. Rimos juntos da situação, nos abraçamos, muitos choramos, principalmente os que permaneceram, constrangidos ao encarar os que foram demitidos, que nos consolavam dizendo que ficariam bem, mais abraços, mais cerveja, mais choro. Os chefes, principalmente Rocco e Rik, estavam devastados. Enfim… amplificadas pela cerveja, as emoções se exarcebaram. E o pior que foi a segunda vez que tudo isso me aconteceu (anteriormente foi na Southlogic, mas lá foi mais a seco, não foi tão dramática). Espero que tenha sido a última.

Pois bem, mantive meu emprego, mas ainda estava a perigo. A empresa passou por uma reformulação, fechou e os funcionários passaram para o outro grupo, que (lembram-se dos requerimentos citados anteriormente?) não era certificado para lidar com vistos estrangeiros. Com o risco iminente da empresa fechar em breve (não tinha contrato algum) ou de perder meu visto pela mudança de grupo, comecei a procurar por emprego. A coisa não foi fácil, geralmente passava pelo processo inicial e entrevistas mas era barrado no quesito “imigrante complicado”. Acabei encontrando uma empresa aqui perto que está acostumada a contratar estrangeiros, me inscrevi para um novo visto e agora trabalho lá, então a princípio está tudo tranquilo agora (embora ainda esteja no contrato de experiência). Mas foram meses de tensão, sem poder planejar minha vida, sem saber onde estaria em poucos meses. Meus amigos acabaram se espalhando, alguns poucos ainda estão na Monumental, outros poucos trabalham na mesma empresa que eu, muitos tiveram que se mudar para outras cidades. Ainda mantemos contato, o que é ótimo, pois na empresa nova a coisa é um pouco fria.

Minha rotina mudou consideravelmente, com o que chamam aqui de commute (morar numa cidade e trabalhar em outra). Todos os dias agora viajo a Derby, que não é muito longe, dá menos de meia hora no trem, que pego com o David, que ainda trabalha comigo, e com o Joe, que está trabalhando em Birmingham e pega a mesma linha. O chato é que a estação não é muito perto da minha casa, e a empresa é mais longe ainda da estação de Derby. Temos um ônibus meio depressivo que nos leva lá, mas passa apenas duas vezes por dia, e quando preciso fazer hora extra (o que é bastante comum), preciso arranjar um modo alternativo, já que o ônibus de linha passa lá em uma frequência ridícula. Então comprei uma bicicleta, que levo comigo no trem; ida e volta, pedalo pouco mais de 17km por dia, e ao menos estou fazendo um exercício, o que não é ruim. Aqui não é difícil pedalar, a bicicleta sempre tem prioridade e os carros respeitam, bem diferente de quando tentei pedalar em Porto Alegre há 15 anos (o que foi uma experiência traumatizante). Às vezes me sinto como naquele dia “O Dia da Marmota”, todos os dias na mesma rotina de trem, mas não é de todo ruim. Ou converso com meus amigos na viagem, por vezes leio, ou fico navegando no celular, então não é um tempo de todo perdido.

Pois bem, falando um pouco do novo trabalho, a nova empresa é a Eurocom, que é relativamente grande (pouco menos de 300 funcionários) e está no mercado há mais de 17 anos. Recentemente eles fizeram jogos como Dead Space Extraction e o remake do Goldeneye pro Wii. Eu não sou mais programador líder como era na Southlogic/Monumental, ao menos por enquanto. É até bom focar mais na programação para variar, e me estressar menos com cronogramas e reuniões, embora dê vontade de participar mais das decisões; mas vamos ver como as coisas se encaminham no futuro. Por enquanto estou aprendendo bastante e conhecendo muita gente. Ah, o projeto no qual estou trabalhando é divertido, um jogo da Disney com várias propriedades intelectuais (tipo Monstros SA, Piratas do Caribe, Aladim, etc.) para Wii, PS3 e X-Box, chamado Diney Universe.

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E assim segue o rumo das coisas. Ao menos por enquanto.