Seguindo na minha sina de colocar o blog em dia, vou falar um pouco da nossa viagem ao Marrocos. A épica aventura começou no ano novo, quando Gabi e o Sandy fizeram uma festinha na casa deles, onde tomamos muita cerveja (incluindo Brahma) e comemos vários petiscos (geralmente chips que tu mergulha em molho, coisa bem popular que chamam de dip). Foram também uns Brasileiros que conhecemos aqui, mais o Rob (o designer Australiano do meu projeto, muito gente fina) mais um Inglês e um Português. É divertido ver todo esse pessoal diferente reunido, mas acabou sendo bem Brasileira a festa, com música tipo Ivete Sangalo e as gurias aloprando.
Bebemos feito uns condenados, para variar, antes e depois de irmos para um pub onde supostamente estaria rolando um baile de máscaras, o que acabou se revelando uma grande mentira, visto que apenas uma ou outra pessoa estava usando. No dia seguinte me disseram que a música era ruim, mas sinceramente não lembro, e para mim estava tudo normal, fora quando uma amiga nossa quase foi expulsa por jogar cerveja nas pessoas, algumas quedas (o banheiro traiçoeiramente estava escada abaixo) e uma discussão minha com um inglês que eu realmente não lembro como se originou e nem o conteúdo da conversa; tentei buscar informações com outras pessoas mas ninguém sabe, só lembro de estar discutindo enquanto tentava me livrar dos socos da Neiva dizendo para a gente ir embora (parece que ela estava com medo que fosse às vias de fato).
Tamanha falta de noção originada no álcool nos levou a beber vinho pela rua (o que é crime) em frente a policiais, beber na cara dura latas de cerveja para dentro do pub (o que não é uma coisa lá muito certa) e no final da noite mijar na rua (mais um crime). Sinto muito por tudo isso, sei que errei, vou tentar não repetir
Pois bem, no dia seguinte, o inferno veio à tona… Para terem idéia do meu desespero em melhorar, tomei uma lata de coca cola inteira (que troço terrível), já que todos falam dos poderes miraculosos da mesma quanto à ressaca. Tá certo que funcionou, eu ainda me sentia muito mal porém ao menos comecei a ver uma luz no final do túnel; mas também pode ter sido uma coincidência, pois acho que a bile já tinha acabado por completo (desculpem os detalhes degradantes). E a desgraça é que nosso ônibus para Luton (uma cidade satélite de Londres, onde pegaríamos nosso vôo) sairia naquela noite, à meia noite.
Chegamos em Luton após as 3 da manhã, nosso check-in seria às 4 e o vôo às 6. Parecia um daqueles filmes de zumbi onde as pessoas se refugiam em um shopping center, pois estavam todos atirados pelo chão, dormindo como podiam. Na fila, achei curioso que algumas pessoas falavam em Português (sempre fico surpreso quando escuto a língua mãe por aí), provavelmente alguma remanescência da época em que Portugal fundou a cidade de Agadir, no litoral sul do Marrocos.
A chegada à Marrakech foi bastante tranquila, do avião já podíamos perceber um cenário muito diferente, muita poeira e casas cor de areia. Incrível como todas construções tem a mesma cor, e cada conjunto de poucas casas sempre possui uma mesquita anexa, com megafones na torre, para chamar os fiéis a rezar apontando para Meca. Mas nesse momento, tudo que eu queria era entrar no país (o que foi fácil e rápido, nem falei nada, só ganhamos um carimbo e passamos) e então conseguir dinheiro local. Achei uma daquelas máquinas ATM e peguei 3000 Dirham, o equivalente a umas 280 libras. O fato do dinheiro ser praticamente 10x mais ajudou bastante na hora de calcular os preços.
Pois bem, perdidos na cidade, acabamos pegando um táxi (decisão da qual me arrependi depois), pois eu tinha lido que eles eram baratos e eu tínhamos medo de nos perdermos, pois eu sabia que o nosso hotel era difícil de achar. O taxista parecia ser muito gente fina (aparências enganam), falava um bocado de inglês mas coisas como o quanto ia cobrar ele não entendia (que coincidência). Fato é que estávamos de sangue doce ainda, conversando com muita boa vontade olhando para todos os lados tentando absorver o novo panorama. O lugar onde íamos era a praça Djemaa el Fna, a principal da cidade e uma das mais movimentadas da África, segundo a wikipedia.
Passando por um trânsito infernal, palácios e muros gigantescos que cercam toda a Medina (a cidade velha), chegamos na tal praça, onde o cara me cobrou 200 dirham. Acabei pagando para não me incomodar, pois ainda não tinha parâmetros para saber quanto deveria custar, e estávamos numa praça com muita gente, na beira de uma estradinha toda enlameada e a Neiva me olhando com uma cara de pânico total. Quase que imediatamente, um velho maluco já estava com nossas malas dentro de um carrinho tosco tipo aqueles de papeleiros, entrando na ruela movimentada. Cheguei a tirar uma das malas de dentro, mas sério, essa gente é muito insistente, e eu não sabia exatamente onde ir nem como levar as malas no meio daquele barro, e acabamos deixando. Ele vai tocando o carro por cima das pessoas, desviando conforme possível dos burros e motos que passam a todo momento. Vocês tinham que ver a cara da Nevinha!
Chegando no hotel, foram-se mais 50 Dirham pro velho (o que o dono do hotel disse que era um absurdo, assim como o táxi, que deveria custar no máximo 80), mas no final, pensando bem, não foi de todo ruim. Era totalmente impossível eu encontrar o caminho até o hotel, que fica no meio de um labirinto de ruelas de um metro de largura, e que não encontrei de maneira nenhuma no google maps. Aquilo é um mundo à parte, coisa que se vê em filme mas que só estando lá para saber realmente como é. Vou colocar um link aqui para vocês verem onde estávamos, fica por aí no centro do mapa…
Chamar de ruela esses caminhos que passam por alí é um baita elogio, na real não passam de um emaranhado de corredores com pessoas enroladas em panos andando para cima e para baixo. O hotel ficava numa dessas, nada mais que uma porta que entrando revelava um local agradável, com um “pátio” no centro, então largamos nossas coisas e fomos almoçar e olhar melhor os arredores. Na praça, encontram-se encantadores de serpente com umas flautas estridentes e irritantes, pessoas com macacos querendo que tu tire uma foto com eles, uns caras vestidos com uma roupa meio de palhaço, vermelha com sininhos, que também querem fotos… um tio que vende um monte de dentes (sim, muitos dentes), diversas mulheres querendo fazer aquelas tatuagens de renah (é assim que se escreve?) e bancas vendendo frutas bizarras e medicamentos exóticos. A melhor foi quando a Neiva “roubou” uma foto de um desses caras, de longe, e ele saiu correndo atrás dela batendo o sininho XD
Seguindo uma dica do Ken (o dono do hotel) fomos fazer a nossa primeira refeição em solo Marroquino. Basicamente, todos os restaurantes no Marrocos têm a mesma comida: tagine, couscous e brochette. O tagine é o meu favorito disparado, um esquema de cerâmica onde se faz uma carne com legumes e batatas meio ensopado, perfeito para comer com o pão que vem com toda e qualquer refeição por lá. De acordo com a região, o tagine muda um pouco, mas é basicamente a mesma coisa, mudando um detalhe ou outro e a carne; comemos uns 20 diferentes, são bem saborosos, embora no final estivéssemos um tanto enjoados. Couscous é um negócio feito com um grão (tipo grão de bico) que achamos meio sem graça, e o brochette é um espetinho tipo um churrasquinho de gato.
À noite ajudamos o Sandy e a Gabi a encontrar o caminho para o hotel (eles vieram em um vôo diferente), jantamos, tomamos um café e passeamos na praça novamente, pois depois de um certo horário ela muda radicalmente. Dezenas (centenas?) de bancas de comida são montadas, têm acrobatas, músicos e contadores de história. Na real os Marroquinos são quase todos de origem Berbere, a tribo supostamente original do Marrocos (vai saber quais existiram ali, antes deles…), então eles contam, tocam músicas típicas, encenam, essas coisas. Confesso que não prestei muita atenção, pois não dá para entender a língua deles, e ficam te atacando o tempo todo para pegar dinheiro, são muito chatos…
Aliás, a chatice marcou muito nossa estadia em Marrakech. Ali a achacação é violenta, tudo que tu for comprar vão tentar oferecer por 3 ou 4 vezes o preço, querem o tempo todo te vender algo, tirar uma foto, ser teu guia, te fazer um desenho na mão (como quando uma guria se agarrou na mão da Nevinha e veio com o lance de rhena, assustando ela e sujando a mão com tinta), te levar de táxi, e até te atropelar (pelo menos para isso eles não te cobram). Sim, por que por todo o lugar tem motos passando o tempo inteiro, carroças e burros. Então tu tem que andar por ruelas minúsculas, tentando não ser atropelado e ainda se desvencilhando dos achacadores. Isso tudo e ainda tentar curtir e olhar as coisas interessantes que estão por todo lado. Vou te contar, não é tarefa das mais fáceis. É tudo muito interessante, mas se não fosse por toda essa xaropisse, seria muito mais agradável. Os Souks por exemplo são labirintos gigantescos de corredores de lojas, com muitas coisas interessantes para se ver. Seria ótimo poder olhar as coisas tranquilamente, mas vou te contar, como são chatos!
Visitamos coisas como o museu, nos perdemos (no bom sentido) um pouco na cidade e no dia seguinte viajamos para Setti Fatma em um táxi que nos disseram ser para 6 pessoas (acabamos indo com dois suecos que estavam no hotel), o que é um absurdo. O tal de “grand taxi” é tipo um santanão, para 4 passageiros, então fomos muito apertados, eu na frente com a Neiva no meu colo. Incrível como isso é permitido (o taxista tem até seguro, para 6 passageiros), mas de um jeito ou de outro conseguimos chegar lá. Nada mais é que uma cidadezinha que tem umas cachoeiras, bonito, mas nada de mais. No caminho visitamos uma casa típica berbere, o que foi interessante.
Sobre a língua, o pessoal fala de tudo um pouco, vão tentando até achar uma que tu entenda; nunca imaginam que tu é brasileiro, nos falaram que é raro ver um. Creio que brasileiros que vêm para esses lados de cá querem ver lugares mais ricos que o Brasil, não mais pobres. Mas enfim, uma língua particularmente útil ali é o francês, praticamente todos falam, e acabei aprendendo umas palavras básicas (entender os menus e pedir a conta, por exemplo). Frequentemente eu também falava em espanhol, pois eles constantemente entendem (os espanhóis colonizaram no passado, e vão muito para lá atrás de férias exóticas).
Uma coisa que achei triste é que rapidamente desenvolvi um escudo de proteção; comecei a ser ríspido com todos, não acreditava mais em ninguém, e minha palavra padrão era “nô”. Chegavam perto eu já tacava um “nô”. Tenho certeza de que às vezes a pessoa podia ser legal, mas sempre que tu dava trela, descobria que estavam tentando nos engambelar com alguma história mirabolante para arrancar dinheiro. Pensam que todos turistas são ricos, e que é uma obrigação nacional arrancar o máximo que puderem deles. Mas uma coisa reconheço: em nenhum momento tu se sente ameaçado por roubo ou assalto, os lugares são pobres mas seguro (fora a excessão do incidente no parágrafo abaixo).
Um dia me aventurei com a Neiva para a cidade nova, que é totalmente diferente (é mais rica, tem Zara, McDonalds, essas coisas) e sem pessoas te atacando. Com isso, relaxamos um pouco, e nesse momento baixei a guarda e aconteceu um fato estranhíssimo que até hoje não entendi o que aconteceu. Um senhor de uns 50 anos apareceu do nada, começou a gritar, segurou meu braço, e estava totalmente alterado. Não sei se queria dinheiro, ou me xingar por que eu estava andando de mãos dadas com uma mulher, sei lá. Talvez tenha sido a excessão à regra supra citada e estivesse tentando me assaltar. O que sei é que me desvencilhei, joguei o maluco longe e atravessei a rua, que diabos…
Uma coisa que achamos totalmente bizarro foi que é raro encontrar casais pelas ruas. Homens geralmente andam com homens, e mulheres com mulheres. Pior que andam juntos mesmo, tipo mãos dadas e tal. A Neiva ficou chocada com os caras, pois eles rezam numa posição digamos estranha, usam uns vestidos, e frequentemente andam com outros homens de mãos dadas e por vezes braços dados o.O
No dia seguinte, alugamos um carro e nos mandamos para as montanhas na direção sudeste. Viajamos até o Todra Gorge, que é tipo um cânion onde passamos a noite em um quarto de hotel muito legal dentro da pedra, como uma caverna. Antes tivemos uma ótima janta com músicas típicas e uns locais fazendo umas mágicas, e jogamos cartas e então no dia seguinte rumamos para o deserto do Sahara.
Cada um no seu dromedário, entramos no deserto com um guia para passar a noite num acampamento berbere, cerca de uma hora e meia de caminhada num passo bem lento. O guia era uma figuraça, e falava várias línguas que, segundo ele, aprendeu na universidade do deserto. Após um tagine, ficamos ao redor do fogo conversando bastante em espanhol com os guias, batucando uns tambores. Nunca me imaginei num frio tão grande em pleno Sahara, e depois que fomos para a tenda a coisa só piorou. Eu e a Neiva dormimos com todos os casacos mais as cobertas, que não eram poucas, e mesmo assim acordei no meio da noite com um frio de doer a cara!
Voltando para o oeste, passando por várias estradas absurdamente estreitas (do tipo que tu tem que ir um pouco pro mato quando passa outro carro, imagina nas curvas em morros!), algumas paradas no caminho em pequenos vilarejos, e uma estrada errada (que simplesmente terminou literalmente no meio do nada), chegamos a Agadir. Este é um balneário bonito porém não muito antigo, pois a cidade original foi quase toda destruída por um terremoto. Comi um excelente, só para variar, tagine; dessa vez de peixe.
Gabi e Sandy, que ficariam uma semana a mais no Marrocos, resolveram permanecer em Agadir mais um dia, então eu e a Neiva pegamos o carro na manhã seguinte e rumamos para Marrakech. Bah que viagem problemática… para variar me perdi, então como tínhamos hora para entregar o carro, acelerei mais do que devia e consegui receber a primeira multa da minha vida, por ultrapassar num local proibido! Resultado: 400 Dirham de multa. Pequeno detalhe: eu não tinha isso em dinheiro comigo, e não existia um caixa automático nem longe dalí, quem dirá perto! O policial me diz então que eu deveria comparecer no tribunal em 4 dias… daí me apavorei, meu avião saía no dia seguinte! E o cara só falava árabe e francês, ou seja, a coisa não estava nada fácil para mim. Mas como um brasileiro treinado, acabei conseguindo dar um jeitinho: mostrei que só tinha 200 Dirham, mostrei a passagem, o cara ficou com pena, e me falou: “OK, tu estava sem cinto de segurança, multa de 100… multa de ultrapassagem 400 Dirham”. E eu bem trouxa, pensando que ele queria me adicionar mais uma multa, chegando a 500, disse que “não, estava usando”, e ele insistiu… foi quando me dei conta que ele estava me dando uma multa mais barata pra me livrar a cara. Nunca pensei que ficaria tão faceiro falando pra um guarda: “sim, eu estava sem cinto, desculpe, me multe por favor”! O policial foi muito gente fina, o tempo todo muito tranquilo. Me deu a multa e ainda disse que era um souvenir do Marrocos. A essa altura, achei tudo ótimo: no fim, conseguiríamos devolver o carro chegando vivos de volta a Marrakech.
- Sim, são dromedários, não camelos =)
- Grêmio pelo mundo!
- Muro da medina em Marrakech
- Kasbah em Ouarzazate
- Foto de banda no mesmo Kasbah
- Nossa caverna hotel em Todra Gorge
E lá fomos nós de volta a Nottingham, após umas quantas aventuras. Mais fotos no picasa da Nevinha =)






Março 6, 2009 às 3:44 pm |
fenomenaaaal. excelentes fotos.
terra da achacação = teu inferno hahaha.
o que são os numeros ali no muro da medina?
abraçoo
Março 6, 2009 às 3:47 pm |
Não faço nem idéia XD
Março 6, 2009 às 4:13 pm |
Ótimo texto! Pelo jeito foi uma grande aventura. Eu rio muito pensando na cara de pavor da nevinha… hehe
Março 7, 2009 às 4:03 am |
Carimbou a carterinha da FUNAE e validou por mais uns 5 anos com essa, hein ?
Mas deve ter sido uma boa experiência. Afinal como diria Anthrax: What doesn´t kill me makes me stronger! []´s
Março 10, 2009 às 9:57 pm |
cara, que foto legal aquela dos dromedarios, parabens pro fotografo.
abs para todos!
Março 11, 2009 às 2:04 pm |
Dá-lhe Tocaio, copando o mundo!
Maio 15, 2009 às 12:26 am |
ehhehe.. massa Tocaio….. toda a europa pra conhecer e tu pegou uma aventura diferente da mesmice…
. O melhor de tudo, pra mim, foi conhecer este povo e país por tabela…. eheheh
A Fabi tá aqui rindo da aventura insólita… abraços
Maio 21, 2009 às 9:28 pm |
Não conta mais nada Tocaio! Estou esperando o próximo post faz meeeeeeeses!!! Tô com muita saudade de ti e da Nevinha!!! Vê se escreve!!
Abração
Julho 5, 2009 às 8:22 pm |
tirou do ar os álbuns mais antigos ali no picasa? do aeroporto e tal
:~
Julho 8, 2009 às 3:21 pm |
Não que eu saiba, vou perguntar para Neiva. O blog é meu, mas quem cuida do picasa é ela
Hoje vou voltar a postar algo sem falta, monterei!